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O ÓPIO ARTÍSTICO

6 de dez. de 2019
4 min de leitura

Atualizado: 13 de mar. de 2020




Em diversos ambientes é possível perceber os reflexos da depressão na sociedade. No Brasil 11,5 milhões de pessoas são afetadas pela depressão, isso significa que 5,8% da população sofre desse transtorno. A doença não privilegia a idade, o endereço, gênero ou cor, ela atinge todo o espectro social existente. Há preconceitos que já estão enraizados na sociedade, e com o advento das redes sociais essas discriminações alcançaram uma gama maior de pessoas atingindo as que são diagnosticadas com depressão. A doença já alcançou a cultura popular que se mostra presente na arte. A propagação de informações sobre o distúrbio leva a sociedade a ter um maior conhecimento sobre este problema que assola o século XXI.


Vivemos um período em que séries e desenhos apresentam constantemente o tema da depressão, seja a dependência em drogas desencadeada a partir desta doença, como na personagem principal em Euphoria; o suicídio de uma adolescente em 13 Reasons Why; ou um cavalo politicamente incorreto se afundando em sua vida pelos seus vícios como vimos em Bojack Horseman. Estamos a todo tempo analisando como essas histórias refletem na vida real. A mídia vende a ideia de personagens depressivos com destaque para os diferentes caminhos que eles tomam ao decorrer das histórias, levando assim o público a assistir os fatores tratados como novidade.


Para Theodor Adorno e Max Horkheimer, filósofos e sociólogos alemães, a cultura popular é semelhante a uma fábrica que produz bens culturais padronizados como filmes, programas de rádio, e revistas. Segundo a escola de Frankfurt, esses bens são usados para manipular a passiva sociedade de massa, criando um termo a partir desta ideia, a chamada Indústria Cultural. Isso pode se tornar um paradoxo para vários artistas. O ato de escrever, produzir e lançar músicas que contenham - explicitamente - a tristeza, melancolia e falta de esperança em relação ao mundo, não faz com que a indústria deixe de comercializar essas produções.


Eu posso até me matar. Mas se eu me matar, vou me tornar um produto ainda mais interessante para essa indústria escrota”, frase dita por Kurt Cobain, cantor e guitarrista da banda Nirvana, em uma entrevista para o jornalista Dodô Azevedo em 1993. Ao lermos instantaneamente somos levados a refletir sobre como até os próprios artistas entendem serem apenas mais um produto para a cultura popular. Ao ouvir as músicas do Kurt, é possível perceber as composições tristes em relação à vida, às pessoas e sobretudo, às drogas e suas insatisfações.


Em suas afirmações a Dodô Azevedo, o cantor falava sobre a dor da depressão: “Dor de ver minha imagem explorada por meus empresários, minha esposa, minha família. E não há nada que eu possa fazer”, “Dor de ver a garotada toda ser manipulada pela indústria de entretenimento e descobrir que eu, no fundo, sou eu mesmo uma ferramenta, um instrumento de dominação da garotada usado pela indústria”, “Dor fazer shows para 100 mil pessoas vestidas com a camiseta da sua banda e que não estão nem aí para o que você está tentando dizer com sua música. São fãs só pela moda”.



"I miss the confort in being sad" - algo que minha cabeça traduziu na hora como "Sinto falta do tempo em que eu realmente tinha motivos para estar triste."


A indústria cultural mostra-se despreparada para lidar com a condição psicológica em que o artista se encontra. O que parece importar é se o produto que ele oferece - que antes era uma expressão cultural - ao cair na mão da indústria se transforma em mercadoria, vai dar o retorno que os interessados por trás esperam ter. Artistas depressivos sentem mais quando se trata desses compromissos e responsabilidades que o seu estilo de vida tem. No senso comum, as pessoas não conseguem entender como alguém com todo esse padrão de vida - modelo institucionalizado pelo capitalismo, em que a felicidade se encontra no consumo - pôde desenvolver uma doença como a depressão.


As experiências e histórias dos artistas que sofreram e sofrem do transtorno da depressão e do vício em drogas, evidencia a importância que é fazer o tratamento correto. Estamos vivendo em um período onde mostram o tempo todo a doença atingindo a população, campanhas como a do “Setembro Amarelo” evidencia a importância de discutir esse problema. Temos psiquiatras, psicólogos e psicanalistas que contribuem e auxiliam na caminhada pela cura. A base do tratamento geralmente inclui medicamentos e o auxílio desses profissionais, e cada vez mais as pesquisam mostram que esses tratamentos podem normalizar alterações cerebrais associadas à depressão. A doença causa sentimentos como angústia, falta de esperança, cansaço e tristeza crônica.


O tratamento vai além de medicamentos e acompanhamento médico, mas também de um espaço familiar saudável - que contribua para um melhor recuperação do indivíduo que está na crise -, e de um grupo de amigos que entendam a situação em que o diagnosticado se encontra. A medicação é um dos suportes usados para manter o paciente realizando suas funções corriqueiras normalmente. Não é apenas os medicamentos que vão levar o paciente a cura, porém todo um conjunto de mudanças. Tudo isso parte da coragem de falar sobre o problema que enfrenta, a depressão.




 
 
 

1 comentário


vivianecviana.adv
07 de dez. de 2019

Sensacional!

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