REFLEXOS DA DEPRESSÃO NA COMUNIDADE LGBTQ+
Atualizado: 13 de mar. de 2020

Força de vontade, luta e paciência.
A depressão na comunidade LGBTQ+ é cada vez mais um assunto ocorrente, sendo uma das principais causas do adoecimento mental dos jovens e adolescentes. Violência verbal e física, além da discriminação, são motivos para que tantas pessoas passem por momentos de sufoco e angústia, que podem levá-los ao suicídio. Se o assunto for analisado detalhadamente, é possível ver que o preconceito também existe na própria comunidade LGBTQ+.
Esquecemos que, mesmo sendo parte de uma minoria, um indivíduo foi criado e modificado a partir de uma cultura que apresenta diversos paradigmas que não são facilmente mudados internamente. Então, até dentro da comunidade LGBT, onde o indivíduo deveria se sentir acolhido e seguro, a violência continua, porque alguém sempre vai estar fora do “padrão” dos LGBT’s. O Grupo Gay da Bahia (GGB) levantou um estudo sobre o aumento de mortes de pessoas LGBTQ+. Em 2019 foram 141 mortes de homossexuais, incluindo homicídios e suicídios. As pesquisas acadêmicas confirmam que os LGBT’s tendem a se matar quatro vezes mais que os heterossexuais, sendo a discriminação a causa principal de tais mortes voluntárias.
De acordo com a jovem R. Oliveira, de 23 anos, a descoberta da depressão veio na adolescência quando começou a se sentir melhor apenas ao estar na própria companhia. “Quando eu percebi que quando eu tava sozinha me sentia melhor, quando qualquer música que eu ouvisse me sentia triste e quieta, ou quando eu não queria ver ninguém, então eu pesquisei sobre isso e vi que poderia ser começo de depressão, comecei a procurar psicólogo justamente para não agravar o caso já que eu tinha conhecido casos na família e amigos também.” Após a descoberta da doença ela tentou procurar por ajuda, mas não foi tão fácil, “eu procurei ajuda com uma psicóloga da escola e não foi aquilo que eu esperava. Ela acabou chamando minha mãe na escola, e contou tudo a ela sobre o que eu tava falando a respeito, e daí, eu acabei procurando a ajuda na outra escola. Bem melhor, acolheu bem, ela foi super atenciosa comigo e eu achei que em nenhum momento ali ela iria contar a minha mãe, foi o que me fez confiar em outro profissional”, relatou.
A escolha sexual é um dos principais motivos que podem desencadear a depressão, cada caso tem a sua variação de acordo com a pessoa, mas o que normalmente acontece é que, o indivíduo por não ser acolhido, acaba se isolando e deixando a tristeza dominar seus sentimentos. R. Oliveira retrata como a falta de apoio da família sobre a sua sexualidade colaborou com a doença “eu acho que eu não me sinto segura com minha mãe. Em contar certos assuntos com ela, porque eu creio que vai ser, tipo, motivo banal ou motivo besta. Quando eu contei a ela recentemente da minha orientação sexual, ela surtou, não foi aquilo que eu esperava, porque quando a gente ama, quando a gente gosta, a gente gosta da pessoa pelo que ela é, não pela orientação sexual que ela tenha”, destacou a jovem.
Ter apoio de alguém é essencial para se reerguer da depressão, independente de ser família ou não, haverá alguma pessoa disposta a estar ali, em qualquer situação. Para R. Oliveira, esse suporte foi crucial para ela ter forças para melhorar “as pessoas sempre me deram apoio, sempre me deram suporte, eu realmente não encontrei isso na família onde eu deveria encontrar. Só nos amigos encontrei apoio, encontrei, assim, abraço, porque Graças a Deus eu consegui amigos, que realmente me aceitam da forma que eu sou.” É a partir destas pequenas ações que o ser humano consegue ter forças para lutar contra os sintomas e melhorar seu convívio em sociedade.
Lidar com os sentimentos é a parte mais difícil, pois a cada vez que ocorre algo que magoa, a sensação de tristeza, isolamento e insignificância fica cada vez mais crescente, principalmente quando vem de quem se ama, R. Oliveira sabe bem como é conviver com essa sensação. “Às vezes machuca um pouco. Minha mãe né, é uma pessoa que deveria me dar amor, carinho, atenção e ela se incomoda mais com o que as outras pessoas acham, do que ela realmente leva em consideração, e é assim, machuca um pouco, mas infelizmente eu não tenho culpa.” Ao aceitar quem realmente é, a culpa se espalha como se o indivíduo estivesse sendo parte da comunidade LGBTQ+ de propósito, ficando difícil de entender que é totalmente o oposto, a jovem tenta mostrar a sociedade que isso não é uma escolha do ser humano, “muitas mães podem achar que os filhos tem culpa, mas tem que entender que o filho não tem culpa, não é uma doença que a pessoa pode curar ou uma coisa assim. São coisas que acontecem na vida, e o que a gente mais precisa é de apoio.”
O uso de substâncias, lícitas e ilícitas, é vista por muitos como uma saída, uma forma de sair da realidade, porém ao consumi-las o indivíduo está apenas se afundando mais na doença. A sensação de leveza que elas trazem passam rapidamente, trazendo de volta todos os sentimentos angustiantes de antes, o que pode acarretar uma maior quantidade de uso, podendo gerar o suicídio, R. Oliveira alega “já pensei em suicídio várias vezes, cheguei várias vezes a tentar cometer suicídio” tentar manter a mente limpa e pensar em um futuro melhor é fundamental “motivos de lutar, motivos de tentar mais uma vez, então, nenhum problema vai ser o fim do mundo, por mais que a gente tente, por mais que a gente ache que tudo acabou, vai ser um recomeço para a forma que a gente vê a vida.” declarou.
A entrevista expõe como coisas simples do dia a dia a ajudam a se manter firme “Ah, eu sempre procuro, quando eu tô triste, ouvir músicas que me alegram, procuro também, querendo ou não, chorar porque o choro alivia muito, procuro conversar com as pessoas que me dão apoio, que me dão atenção, que me dão amor, que me dão carinho, que realmente estão dispostas a lutar comigo em relação a isso, porque o que a gente precisa é isso, de pessoas que estejam realmente dispostas a querer estar com você.” São pequenas mudanças que transformam a vida do depressivo a se tornar melhor, entretanto, é um caminho longo, mas possível de ser seguido quando a decisão de fazê-lo é simplesmente tomada.
A cura gay é um dos assuntos polêmicos discutidos na atualidade. Muitos acreditam que ser LGBT é uma doença e que ainda será descoberta a sua cura. Porém, desde 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS), deixou de classificar a homossexualidade como uma anomalia e a retirou da Classificação Internacional de Doenças (CID). A entrevistada comenta sobre o assunto “Não é uma cura, a gente não está buscando uma coisa pra curar, a gente está buscando uma coisa que a sociedade entenda, porque a cura gay não é uma coisa que tenha que ser curada, até os próprios psicólogos e psicanalistas eles entenderam que não é algo que tenha que ser curado.” R. Oliveira fala com segurança sobre o assunto, por ter sido o seu tema apresentado no TCC “O que o governo quer, é que a gente entenda que existe uma cura para uma “coisa” que não é doença, abarcando assim, mais preconceitos, mais formas das pessoas pensarem que isso é frescura, é algo que vai passar, então quanto mais debatido esse assunto é, de forma negativa, menos aceito ele vai ser” a falta de informação da sociedade sobre a assunto, pode desencadear um quadro pior na depressão, por isso ela alerta “já tiveram pessoas LGBT’s que passaram por essa famosa “cura” e acabaram ficando pior, bem pior do que já eram, então, eu acho que a sociedade que tem que pensar o que realmente precisa de cura” ela desabafa o quanto o ser humano pode ser ignorante “então, as pessoas que acreditam que existe essa cura, é porque só querem saber o que é essa cura, para poder julgar mais ainda, porque nunca procuraram saber o que é, nem se aprofundaram no assunto.”
A cura da doença, como já comentado, não acontece da noite para o dia, é preciso muita força de vontade, paciência e luta. A partir da entrevistada, pode se notar pontos fortes que podem dar assistência “ busque ajuda, porque por mais que a gente ache que a gente consegue se ajudar, não consegue sozinho...mesmo que os pais não aceitem, isso não é motivo de achar que tudo tá perdido, isso não é um motivo de achar que tudo tá desmoronando e pelo contrário, isso é um motivo de você tentar vencer mais ainda, tentar buscar o que possa fazer você ter sua dependência financeira, buscar algo que queira tirar essa dor de você. Por mais julgamento que você sofra, por mais apontamento pela família, você tem que respirar fundo e saber que é você e você, desde o começo você sabia que não seria fácil.” Esses métodos são cruciais para a cura e a uma vida renovada.



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